Aqui fica o nosso microconto: Sobressalto
Sobressalto
“Beija-me os pés”, dizia o convite. Procurei assinatura, remetente, qualquer coisa… nada. Sem paciência para brincadeiras naquele fim de tarde de cansaços acumulados, atirei o envelope para cima do sofá vermelho enquanto o Horácio me olhava com felina indignação. Tinha direito… esquecera-me de lhe deixar comida de manhã. Precipitei-me para a despensa à procura de uma lata. Encontrei-a, mas estaquei em sobressalto. Alguém deixara um brinco indígena em cima das latas de comida para gato. Além de mim, só a D. Rosa tinha a chave da minha casa e a D. Rosa não era mulher de brincos indígenas. A Sandra fartara-se de rir do massajador cor-de-rosa choque com que ela esfregava a cabeça no dia em que lhe batemos à porta, depois de nos esquecermos da chave dentro de casa. Tinha tido de beliscar a irmã para que se controlasse. O Horácio reclamou comida e, enquanto lhe despejava a lata na tigela, a sensação de invasão aumentou desagradavelmente. Quem? Quem poderia ali ter estado em casa na sua ausência? Quando pousou o olhar sobre o convite no sofá vermelho – Beija-me os pés – a ideia de que poderia haver uma relação entre o brinco e a mensagem anónima fez-lhe disparar o coração, antes mesmo de ouvir a campainha tocar. Aproximou-se da porta com os músculos prontos para se defender. Quando a abriu, porém, a Sandra contorcia-se de riso do outro lado. Um brinco igual ao que encontrara sobre as latas baloiçava alegremente numa orelha da irmã, que lhe estendeu a mão aberta mostrando o velho cubo mágico. Pela primeira vez na vida, tinha as cores alinhadas, era um cubo resolvido. – Vá, beija-me os pés e arranja-me uma sopa – disse a Sandra, antes de entrar rindo ainda.
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